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Pernambucanos apostam em ideias sustentáveis para economizar água

Postado em 02/06/2015 @ 9:27 AM


Os brasileiros nunca se preocuparam tanto em poupar água quanto neste Dia Mundial da Água, celebrado neste domingo, 22 de março. Em uma época de chuvas escassas, barragens vazias e racionamento, economizar virou lei. A água que antes era utilizada em um dia agora precisa ser suficiente para dois. Em algumas localidades, esse cálculo é ainda pior. As 48 horas de racionamento se estendem por três, quatro e até sete dias. Por isso, cada um faz o que pode para viver com o que chega às torneiras. Em Pernambuco, muitos ainda recorrem aos tradicionais baldes e cisternas, mas também há quem invista na criatividade e na tecnologia para fazer a água render. A preocupação se encaixa perfeitamente no tema que a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu para o Dia da Água deste ano: desenvolvimento sustentável.

Cada vez mais pernambucanos investem em técnicas de reutilização e economia de água, seja nas residências ou estabelecimentos comerciais. Afinal, hoje há alternativas para todos os bolsos e disposições. Desde opções simples, como a instalação de válvulas que reduzem a pressão das torneiras; até as mais elaboradas, como a captação das águas da chuva. “Economizar é reduzir a demanda e há muitas técnicas disponíveis no mercado para isso, de uma simples válvula de descarga até coisa mais sofisticada”, reconhece a professora de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Suzana Montenegro, lembrando que a preocupação não deve se extinguir ao final do período crítico de estiagem.


“A gente está passando por um período de reservatórios com baixa acumulação. Nesta época, a necessidade de poupar é muito gritante. Mas a economia não deve ser só agora. A gente precisa de alternativas duradouras, porque a situação de Pernambuco é, historicamente, difícil”, alerta. Pesquisas da Agência Nacional de Águas (ANA) de 2013 confirmam que a disponibilidade de água na Região Metropolitana do Recife é considerada muito crítica. No interior, a situação não é diferente. "Em 1999, o estado de Pernambuco era o mais pobre da federação em disponibilidade de água. Eram menos de 1.320 litros por habitante por ano, o que já era considerado uma situação crítica", recorda Suzana.

A casa da bióloga Maria Adélia Oliveira, no Sítio dos Pintos, Zona Oeste do Recife, é um dos maiores exemplos de que não há mais desculpa para deixar de poupar água. Planejado com calma, para ficar do jeito que a dona desejava, o imóvel foi entregue no final do ano passado com um poço, duas cisternas e um sistema de captação das águas da chuva. “A questão ambiental sempre me preocupou e a questão da água é fundamental, pois tudo que tem vida tem água. Precisamos conservar a água para conservar a vida”, diz Adélia. Na casa dela, uma das cisternas recebe a água do poço e a outra, que tem o dobro da capacidade da primeira, a água da chuva coletada pelas calhas do telhado. “A água da chuva é de boa qualidade. Faço análises periódicas para monitorar. Por isso, uso essa água para tudo. Só uso a do poço quando não há mais água da chuva disponível”, conta. Dessa forma, garante o abastecimento durante oito meses do ano apenas com o que cai do céu.

A economia é grande, e os custos para a instalação do sistema podem ser bem baixos para quem já tem uma casa e pensa em aderir à ideia, garante a engenheira Marília Bechara. “Os telhados das casas normalmente já vêm com calhas, então você só precisa da tubulação para ligar as calhas ao reservatório. E essa água pode ser guardada em reservatórios mais simples, como uma bombona, que parece um balde grande. Só não pode deixá-la parada por muito tempo para não apodrecer [e dar origem a focos de dengue]”, alerta. A engenheira recomenda que essa água seja utilizada na lavagem de carros ou do quintal, mas lembra que também é possível tratá-la para abastecer a residência. “O tratamento mais simples é o de cloro. Basta ver a quantidade adequada e colocar uma dosagem no reservatório”, diz.

Mas as ideias sustentáveis de Adélia não param por aí. Ela quer instalar um telhado verde, que vai servir de filtro natural para a água da chuva coletada; e ainda reutilizar o que vai para o ralo das torneiras nos banheiros. A ideia é que essa água passe por um filtro e vá para a cisterna que já recebe a água da chuva, para voltar a ser utilizada. A analista Tatiana Lucas, que mora em Casa Forte, também quer fazer algo semelhante. No apartamento dela, o plano é direcionar a água utilizada na torneira diretamente para as instalações sanitárias. Enquanto a obra é projetada, é o que resta da lavagem da máquina de roupas que vai para as descargas. O resíduo ainda é utilizado na limpeza do chão. “É bom porque já está com sabão, então economizamos duas vezes”, pontua Tatiana. A analista ainda colocou um arejador na torneira da cozinha – o dispositivo é semelhante a uma peneira e reduz em até 40% o fluxo de água.

Além disso, Tatiana toma cuidados simples nas atividades cotidianas para garantir a economia. “Faço o básico: enquanto escovo os dentes, me ensaboo ou lava os pratos, fecho a torneira; vejo se há vazamentos na tubulação; fecho os registros quando viajo; junto bastante roupa para lavar de uma vez; e não uso a mangueira para lavar o chão ou o carro, apenas baldes de água”, conta. A preocupação tornou-se tão natural que ela já nem sente mais. Os familiares e os funcionários do edifício também incorporaram os cuidados ao dia a dia. “É uma mudança de postura, depois que você se acostuma não tem mais trabalho. E isso é muito bom, porque não abrange apenas uma questão de dinheiro. Se pararmos para pensar na quantidade de água que utilizamos no dia a dia, percebemos que não temos uma relação harmoniosa com os recursos naturais. A gente desperdiça água, comida, energia; tira tudo o que o planeta tem e usa a nosso favor, mas não devolve quase nada”, lamenta Tatiana.

Comércio
A necessidade de economia também já faz parte até do planejamento de grandes estabelecimentos comerciais. A Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, por exemplo, reutiliza água para diminuir a conta. Tudo o que sobra da irrigação do gramado é tratado para voltar à tubulação. A água da chuva também vai para os tanques de tratamento. Ao todo, 50 mil litros são tratados por dia. A cada mês, 2.200 m³ deixam de ir ao esgoto e voltam às tubulações do empreendimento. Tudo isso é tratado em enormes tanques, abaixo das arquibancadas, onde a água também recebe uma coloração azul. “A coloração é para que os torcedores consigam distinguir que é uma agua de reuso. Afinal, essa água é imprópria para o consumo humano e só pode ser utilizada para fins menos nobres”, explica a engenheira do estádio, Marília Bechara. Por isso, a água reutilizada vai apenas para as descargas e a irrigação do gramado. Parece pouco, mas a economia é grande. “Representa 70% do consumo mensal. Só o gramado precisa de 1,5 mil metros cúbicos para ser irrigado por dia”, conta Marília.

Em Fernando de Noronha, a pousada de Zé Maria também dá o exemplo no quesito economia. Além de contar com uma estação de tratamento de esgoto, o estabelecimento tem várias placas de captação de água da chuva, que é tratada na própria pousada para ser empregada nos banheiros. Por dia, cerca de 20 mil litros de água são reaproveitados. “Nós temos dificuldade em encontrar água e isso ajuda a resolver nosso problema”, diz Zé Maria, que também instalou sistemas de aquecimento solar e coleta seletiva na pousada, além de uma horta própria. A professora Suzana Montenegro apoia a ideia da agricultura hidropônica e lembra que agricultores tradicionais podem adotar técnicas semelhantes colocando mangueiras com furos diretamente nas raízes da planta. "E isso é muito importante. Nós cobramos muito dos consumidores, mas é a agricultura que consome mais água no Brasil ultimamente -- 63% do total", diz Montenegro, que também gostaria de ver técnicas de economia nas indústrias.

A horta de Zé Maria é, por sinal, um dos empreendimentos agrícolas mais sustentáveis de Pernambuco. Utilizando a técnica da hidroponia, o empresário economiza até 80% da água que seria necessária no cultivo tradicional de hortaliças como alface, agrião e cheiro verde. Na hidroponia, as mudas são plantadas em canaletas que recebem o fluxo necessário de água misturada a sais minerais para o desenvolvimento das folhosas. Este líquido fica em constante movimento, sendo reaproveitado e garantindo, assim, um rendimento até 40% maior que o de uma plantação comum. “É quase autossuficiente, a gente só fiscaliza e faz as correções. Preciso até de menos funcionários”, conta o dono do empreendimento. Com cerca de 300 litros por dia, Zé Maria produz até oito mil folhosas por mês. A produção é tão grande que já abastece quase todo o arquipélago. “Mas não é tanto uma questão financeira, é mais uma questão de consciência ambiental, porque a gente tem que pensar nos outros e no futuro dos nossos descendentes. Faz parte da nossa filosofia ser autossustentável”, sentencia o empreendedor.

 

Fonte: http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2015/03/pernambucanos-apostam-em-ideias-sustentaveis-para-economizar-agua.html